OPAS lança “Guia de preparação e resposta ante a eventual introdução do Vírus Chikungunya nas Américas”.

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) lançou, nesta semana, o “Guia de preparação e resposta ante a eventual introdução do Vírus Chikungunya na América”. Elaborado em parceria com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americanos, o guia destaca a necessidade de desenvolver programas de monitoramento e prevenção em países onde ainda não há registro de circulação da doença.

Em geral, a proposta do documento é atuar como elemento facilitador para detecção e controle da doença. De acordo com especialistas da OPAS, existe um potencial risco de introdução e disseminação do vírus nas Américas, tendo em vista a ampla distribuição de vetores competentes e a grande circulação de turistas potencialmente infectados, bem como a falta de exposição prévia ao patógeno por parte da população americana.

O Brasil é um país tropical de grande extensão territorial (8.514.125 km2), onde mais de 1/3 deste território é recoberto por florestas tropicais ou outros ecossistemas naturais com condições propícias para a ocorrência de diversas arboviroses, mantidas em uma grande variedade de ciclos zoonóticos. O risco para a emergencia de novas arboviroses, dentre as quais o Chikungunya, relaciona-se a existência de cidades grandes, populosas e infestadas por mosquitos, os quais encontram condições adequadas para reprodução e dispersão.

O Chikungunya é uma doença febril aguda causada por um arbovírus (termo relacionado aos vírus transmitidos por vetores artrópodes, como por exemplos os mosquitos), o Vírus Chikungunya (CHIKV). Os vetores são mosquitos do gênero Aedes, onde os mais comuns são o Aedes aegypti, notório pela transmissão do Dengue, e o Aedes albopictus, relacionado aos últimos focos da doença identificados na Ásia, o qual se mostra extremamente resistente às condições adversas do ambiente, sendo capaz de reproduzir-se tanto no meio rural quanto urbano.

Embora seja uma doença oriunda da África, atualmente a doença tem circulação em diversos países da Ásia, como por exemplo, Birmânia, Tailândia, Camboja, Vietnã, Índia, Sri Lanka e nas Filipinas. Nos últimos três anos, casos isolados da doença foram registrados no Caribe, Estados Unidos, Itália e França.

O período de incubação do vírus varia de 2-12 dias e, na maioria das vezes, a doença é auto-limitante. Todavia, a mortalidade pode atingir até 0,4% em menores de 1 ano, podendo ser mais elevada em indivíduos com patologias associadas e outros grupos mais vulneráveis.

Clinicamente, os sintomas são febre alta (acima de 38,9°C), de início súbito e duração de vários dias há duas semanas, acompanhada de dor de cabeça, calafrios, dores musculares e articulares, náuseas e vômitos. Após a fase aguda, alguns indivíduos podem desenvolver sintomas articulares prolongados, tais como artrites, tenossinovites e incapacidades motoras, bem como demais síndromes articulares. Estudos recentes revelam que até 64% dos indivíduos infectados queixam-se de dor ou rigidez muscular um ano após a infecção, e em 12% os sintomas articulares persistem após 3 a 5 anos.

O termo Chikungunya, que significa “aqueles que se dobram”, tem origem no Swahili, um dos idiomas oficiais da Tanzânia, onde foi documentada a primeira epidemia da doença em 1953. Este termo faz referência a aparência encurvada dos pacientes em decorrência das fortes dores musculares e articulares.

Em 2004, foi registrada uma grande epidemia na costa do Quênia, dando início a um longo período de disseminação da doença por várias ilhas do Oceano Índico, Índia, e diversos países do Sudeste Asiático. Surtos na região ocorreram de modo frequente entre 2004 e 2008, comprovando a facilidade com que o vírus se espalha. Em 2006, um grande surto foi registrado em Andhra Pradesh, na Índia, mesma época em que casos autóctones foram descritos em diversos países europeus.

No Brasil, casos da doença foram detectados pela primeira vez em Agosto de 2010, sendo dois paulistanos adultos, os quais apresentaram os sintomas após uma viagem para a Indonésia, e uma paulistana que esteve na Índia pouco antes de adoecer. Em um artigo publicado em Fevereiro deste ano na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Albuquerque e colaboradores* descrevem o primeiro caso de infecção por Vírus Chikungunya diagnosticado no Rio de Janeiro. Tratava-se de um homem de 41 anos, natural do Rio de Janeiro, sem comorbidades prévias, e com história de viagem prévia à Ilha de Sumatra, na Indonésia.

A análise do perfil epidemiológico recente tem demonstrado que epidemias da doença têm cruzado fronteiras internacionais, mediante a ocorrência de casos notificados em áreas sem circulação prévia da doença, a partir de viajantes egressos de áreas afetadas. Tendo em vista o elevado risco de introdução do Chikungunya nas Américas e, sobretudo, no Brasil, devido ao intenso fluxo de viagens internacionais, a competência e distribuição vetorial e suscetibilidade da população, torna-se fundamental fortalecer a vigilância da doença no continente, dando suporte a uma resposta efetiva ante uma eventual emergência.

*ALBUQUERQUE, I. G. C.; MARANDINO, R.; MENDONÇA, A. P.; NOGUEIRA, R. M. R.; VASCONCELOS, P. F. C.; GUERRA, L. R.; BRANDÃO, B. C.; MENDONÇA, A. P. P.; AGUIAR, G. R.; BACCO, P. A. M. Chikungunya vírus infection: report of the first case diagnosed in Rio de Janeiro, Brazil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. Vol 45, n 1, Uberaba, jan-fev 2012.

Até sexta-feira que vem,

Equipe CIEVSRIO.

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