Ganges: o rio sagrado onde nadar pode ser perigoso à saúde

17Todos os anos, centenas de crianças da cidade indiana de Varanasi – antiga Benares – participam de aulas de natação nas águas do Rio Ganges, e estas atividades se tornam mais frequentes durante o período que antecede às Monções. Elas se juntam aos milhares de fiéis que buscam a purificação através do banho em suas águas, então, consideradas sagradas. No entanto, tais práticas podem significar sérios riscos à saúde.

Há décadas, o governo indiano vem lutando para tentar reduzir a poluição severa no rio, todavia, nenhum grande projeto encaminhado até agora pôde ajudar adequadamente ou solucionar o problema. Além do rio principal, a maioria de seus afluentes é descrita como gravemente contaminada, segundo várias agências indianas, como o Conselho Central de Controle de Poluição, o Ministério do Meio Ambiente e Florestas da União (MMF), a Direção Nacional de Conservação do Rio e a Autoridade Nacional da Bacia Hidrográfica do Ganges (ANBHG).

De fato, quem está imerso nestas águas fica exposto a uma grande variedade de materiais poluentes, incluindo esgotos, resíduos industriais e restos de corpos parcialmente cremados, oriundos dos funerais realizados às margens do rio. Sem dúvidas, o fato de o Ganges ser considerado sagrado faz com que a população feche seus olhos para este problema. “Nós somos o povo de uma cidade santa. Nada de mal acontece conosco quando chegamos à água”, diz Namita Tiwari, mãe de um dos nadadores de 13 anos.

Na opinião de um treinador da Associação de Natação de Saraswati, um dos dois clubes que oferecem aulas na cidade, os jovens devem ser estimulados a ingerir um pouco da água “sagrada”, o que fortalece o desempenho nos exercícios. “Esta água é única”, diz Pramod Sahni. “Depois que você toma, não há como não tomá-la novamente”. A cada aula, ele sempre bebe um pouco, acrescentou. Na religião hindu, o rio Ganges é como uma deusa, cujas águas servem para purificar. Mas a ciência sugere o contrário, ponderou Sahni.

Todos os dias são derramados cerca de 300 milhões de litros de esgoto bruto ao longo do rio. Em Varanasi, uma cidade com aproximadamente um milhão de habitantes, 35 fossas e esgotos desembocam nas águas do Ganges, sendo que dois destes emissários localizam-se a poucos quilômetros de onde acontecem as aulas de natação.

Recentemente, uma análise encaminhada pela Fundação Sankat Mochan (SMF, sigla em Inglês), cujos ativistas defendem a limpeza e preservação do rio, mostrou níveis alarmantes de coliformes fecais – cerca de 35 vezes acima do permitido pelas autoridades ambientais indianas e 440 vezes acima do recomendado para a prática de natação nos Estados Unidos.

Durante o verão, as enfermarias da cidade ficam abarrotadas de crianças que necessitam de tratamento para doenças transmitidas pela água. De acordo com o Dr. SC Singh, pediatra do Hospital Shiv Prasad Gupta, em Varanasi, raramente os pais reconhecem a associação entre o adoecimento da criança e a prática de natação no rio.

Assim, toda essa poluição contamina a população e mata cerca de 500 mil indianos por ano. As doenças mais comuns são Hepatites A e E, Diarreia, Febre Tifoide, doenças de pele, Cólera e até Câncer. Segundo especialistas, a poluição do Ganges é a principal causa da alta taxa de mortalidade infantil na região.

Uma das principais causas de poluição do rio são as cremações. Para o hinduísmo, as águas do Ganges têm origem dos céus, advindas da vontade da deusa Ganga. Por conta disso, faz parte da tradição indiana lançar seus mortos no rio, em uma espécie de oferenda, que são cremados em cima de balsas. Do ponto de vista religioso, tal prática representa o encerramento do ciclo de vida, morte e reencarnação – a Moksha (“libertação”). Por outro lado, as vacas são animais sagrados no país, portanto, seus corpos também são jogados no rio quando morrem.

Estima-se que, a cada ano, cerca de 32.000 corpos sejam queimados e lançados em pelo menos duas localidades de Varanasi. Já a população carente e sem-teto, que não tem poder aquisitivo para custear uma cremação, tem seus corpos queimados precariamente nas margens do rio, sendo jogados diretamente no mesmo.

Agravando a situação, cresce a cada ano o número de fábricas e industrias ao longo de seus afluentes. Diariamente, são desprezadas toneladas e toneladas de materiais tóxicos, incluindo metais pesados perigosos, como o cádmio, o cromo e o mercúrio. A contribuição da poluição industrial gira em torno de 20%, mas devido a sua natureza tóxica e não biodegradável, o impacto acaba sendo amplamente perigoso.

O Ganges é um dos principais rios da Índia. Em seus 2.500 km de extensão, também é um dos vinte maiores do mundo em relação ao fluxo de águas.

O rio é considerado sagrado para os hindus, que acreditam que ao banharem-se em suas águas durante o festival de Maha Kumbh Mela, alcançam a purificação e consequente redenção dos pecados. Aproximadamente 20 milhões de pessoas entram no rio durante a cerimônia, que dura 55 dias. Alguns peregrinos apenas mergulham a cabeça no Ganges, enquanto outros bebem a água e levam um pouco dela para casa.

Além disso, o Ganges garante o sustento de muitas famílias indianas, pois sua margem fértil permite o plantio de alimentos, como trigo, arroz e algodão. Já a água do rio é usada para beber, cozinhar, lavar roupa e para higiene pessoal.

Até semana que vem,

Equipe CIEVS RIO.

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